Mais um texto do meu pai publicado em Zero Hora…

Zero Hora – 04 de setembro de 2009 N° 16084

ARTIGOS
O ensino básico e o Caminho das Índias, por Danilo Gandin*

É significativa a diferença entre Opash e Shankar, na novela Caminho das Índias. Ambos são pessoas absolutamente justas, capazes até de sofrer prejuízos para manter a verdade. A palavra de qualquer um deles é “verdadeira como leite de mãe”.Contudo, são extremamente diferentes em sua prática diária. O primeiro é apenas legalista e formal, embora de uma honestidade que poderia servir de exemplo a muitos de nossos líderes. Mas Shankar, também honesto, é socialmente justo, indo muito além do “minha liberdade vai até onde começa a do outro” ou do “todos são iguais” e “têm as mesmas oportunidades”, sem buscar condições melhores para todos.Para quem não acompanha a novela: num dos capítulos, Opash, que concorria a um posto eletivo contra uma “dalit”, propôs-se a denunciar um roubo de um neto de sua adversária. Na hora do comício, sua própria neta lhe diz que ela tinha dado o objeto supostamente roubado, ao menino. Imediatamente, Opash, diante de todo o povo, muda sua versão e inocenta o menino e a candidata. Mas Opash quer que os “dalits” se mantenham na sua posição de nascidos da poeira dos pés de Brahma, cumprindo as tarefas mais difíceis e menos remuneradas e dando lugar e reverência a qualquer pessoa que tenha casta. Enquanto isto, Shankar, que também é extremamente honesto e de uma casta superior à de Opash, está entre os “dalits”, lutando para que a candidatura de Puja prospere. Mais do que isto, defende um processo de transformação social, buscando a redenção dos dalits, no sentido da igualdade, não apenas formal, mas real, almejando que todas as portas estejam igualmente abertas para todos. Inclusive ele adotou um dalit, o que, segundo Opash e sua família, torna impura a pessoa de Shankar e sua casa.Nossas escolas de Ensino Fundamental e Médio serão preciosas para nossa sociedade na exata medida em que construírem sua identidade a partir de escolhas. Não se deve exigir que todas elas tenham este ou aquele projeto político-pedagógico, porque o essencial é que tenham um e procurem vivê-lo. Não se trata de que Opash queira que todos sejam como ele, nem que Shankar seja o exemplo completo de pessoa humana: o essencial é que todas as pessoas tenham clara sua hierarquia de valores e que as instituições assim procedam também.As pessoas criam uma identidade através de uma sequência de escolhas nem sempre conscientes, mas sempre presentes. Uma criança vai fazendo identificações com pessoas reais e, à medida que vai saindo da infância, também com ideias, para poder constituir-se como pessoa. Além disto, vai construindo um ideal para si, a fim de que isto lhe sirva de horizonte e de base para a escolha de caminhos.Como as pessoas, também as instituições fazem assim. A diferença é que, a menos que sejam compostas por pessoas que passaram juntas por uma doutrinação, nas instituições isto não pode ser realizado por um inconsciente coletivo e necessita ser explicitado através de um documento.Prezado leitor e distinta leitora: se a novela servisse de reflexão sobre os valores que nela aparecem, além das tramas amorosas e das fofocas, seria interessante que ainda tivesse mais audiência.

*Escritor

Publicado em Zero Hora: http://bit.ly/iXFWp

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